por: Rafael Cury*
Amigos recomendaram, "não faça isso". Meu pai aconselhou fingir desprezo. Uma confidente deu sua sentença: "você está louco". Tudo em vão. Dobrei aquela folha de caderno com minha sincera e inocente declaração de amor e coloquei na caixa de correio da menina mais cobiçada do bairro.
Eu tinha dezesseis anos, os hormônios em ebulição, romantismo exacerbado, uma grande pretensão em ser poeta. E naquele pedaço de papel, misturado aos meus garranchos e letra escrita com as mãos trêmulas, havia o grito de um garoto desesperado, "ei, estou aqui, te adoro, te venero, só penso em ti".
Conforme o esperado a estratégia não funcionou. A pequena achou "fofo, bonitinho", ofereceu-me sua amizade incondicional. Nada pior do que se tornar o bom amigo daquela por quem sentimos arrebatadora paixão. Um tapa, um xingamento, qualquer agressão é bem-vinda nessa hora. Seria melhor do que o olhar doce e abraço fraterno que recebi.
Voltei para casa disposto a cultivar a recente fossa. Coloquei um disco ao vivo de Maria Bethânia, que após três ou quatro canções começou a cantar: "quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão". Pausa na música, a diva declama: "todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas..." Senti frio na espinha, arrepio, o que era aquilo? Leram-me a alma sem permissão.
Fui pesquisar em livros (não havia Google nesse tempo de menino). Achei o autor de tais palavras, Álvaro de Campos, meu novo ídolo. Mas o crédito do disco era a Fernando Pessoa. Então descobri tudo o que desprezei na sala de aula, infelizmente a escola ainda insiste em tratar poesia como matéria do vestibular.
Desde então Pessoa tem me confortado. Na tristeza, na embriaguez, na inútil tentativa de compreender o ser humano e o mundo ao redor. Como Fernando, fiquei amigo de Mário de Sá Carneiro. Como Fernando, tentei redigir meu Livro do Desassossego. Como Fernando, sei que "só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas".
(*) Membro dos 7Cronistas Crônicos - grupo parceiro do Lá e Cá