Por Gustavo Jaime*
E lá estava eu, numa segunda-feira nublada de novembro, sozinho na praia. Sozinho não, desculpem: na companhia de Caeiro. De Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
Não sentia frio ou calor, felicidade ou tristeza, medo ou saudade. Sentia uma paz estranha, plena, pura. Era natural que assim ficasse? Nunca tinha passado por isso. Pareceu algo como uma confirmação de que a poesia do Pessoa estava me lendo, lendo meu momento, minha alma, minhas profundezas.
O vício começou uns meses antes. Talvez até mais de um ano antes, se não estou em erro. Refugiei-me nos poemas para curar uma dor silenciosa. Busquei Pessoa, Drummond, Quintana, Leminski, Bandeira, Neruda, Lispector. Busquei as expressões em forma de rimas, de versos, de paralelos negros.
Graças a eles, superei. Melhor: abrandei. Comecei também a compor, a rabiscar umas linhas. E mais que tudo isso: passei a andar de mãos dadas com a poesia. Sempre que leio Pessoa lembro dessa fase. Regresso às noites vazias, com as antologias e meu desassossego. Aquilo tudo parecia escrito para mim, oras bolas!
Estive com Pessoa na melaconlia e depois na naturalidade dos atos. Percorri seus versos com paixão e interesse. Escolhi Lisboa para morar também por conta dele. Visitei a Rua dos Douradores, vivi perto de um dos sítios que viveu, tive vontade de lágrimas e arrepiei-me diante de seu túmulo.
Pessoa é um ente querido, alguém próximo. É uma lembrança, uma presença. Minha história com ele não é única e exclusiva. Tantos outros o leram e lêem, o interpretam, o veneram, carregam-no debaixo dos braços. Mas é uma história, ainda assim e acima de tudo, minha. A minha história com Pessoa.
*Mais um membro de nosso Conselho Editorial, Gustavo é um dos jovens escritores do blog '7 Cronistas Crônicos', um promissor Projeto Literário e parceiro do Lá e Cá.