por Leandro Afonso Guimarães*
Ele não participou de minha formação literária e, pior, sequer figura entre os mais queridos da língua portuguesa. Tudo isso porque o primeiro contato mais íntimo com Fernando Pessoa foi, no mínimo, traumático.
Ele veio após convicta indicação de amigo português, absurda referência literária e que cravou a obra a ser lida como O Livro do Desassossego. Tinha 19 ou 20 anos, e visualizava Pessoa, assim como todos os seus heterônimos (e contatos com textos esparsos), como um cânone tão citado pelos professores de literatura que seu nome levava a antipatia. Cânone por cânone, extraterrestre por extraterrestre, preferia ler Nabokov. Para alguém lusófono, era menos clichê, e ainda existia aquela vaidade do ser sempre diferente. O porém é que, depois do Desassossego, Nabokov virou Pessoa.
Em alguns livros, a depender de meu humor, e de meu grau com a obra ("proprietário"? de biblioteca? emprestada de amigo? quase impossível contato futuro?), tomava notas de trechos que me tocavam de alguma maneira. No Desassossego, não pude destacar nada. Tudo era digno de nota, tudo era denso, bem cuidado e honesto, só que sem nunca soar excessivo em nada disso.
Na arte, existem os artistas e seus operários. No caso da literatura, existem os escritores, e existem aqueles que fazem os papéis, a tinta, os lápis - até o teclado. Mas nenhum papel, nenhuma tinta, nenhum lápis, nem teclado, fica para a posteridade. Ou melhor, quando fica, é justamente pelos seus mestres.
Sou uma folha, uma caneta, uma impressora, quando leio Pessoa.
E isso porque vou sempre com muito cuidado. Doses maiores dele, ou de qualquer heterônimo, só provam o caráter ínfimo de todo o resto. Lê-lo pode fazer mal à auto-estima, pode fazer com que você se sinta um vulgar teclado. Não à toa, ainda não tive coragem de terminar o Desassossego.
*Um dos
Sete Cronistas Crônicos, Leandro é um jovem radialista natural de Salvador, Brasil, e gentilmente redigiu essa crônica para participar do Projeto "Minha História com o Pessoa" que você confere em breve, nalguma edição da
Revista Pessoa.